




Outubro, mês tão importante em minha vida. Neste mês aconteceram várias coisas extraordinárias para mim ao decorrer dos anos, e em 2010 não poderia ser diferente: algo tinha que acontecer. Era uma manhã ensolarada quando liguei o computador antes de ir pra escola, como de costume. Visitei os sites que costumo visitar, e por curiosidade dei uma olhada na comunidade do Paul McCartney no orkut(para quem não sabe, Paul foi o baixista da banda The Beatles, integrou a banda The wings e tem em sue histórico uma carreira solo brilhante) e quase tive um colapso quando eu vi o assunto mais falado no fórum: Paul no Brasil.
Os Beatles são como pais pra mim.Desde sempre eu escuto suas músicas, minha mãe tocava músicas deles no violão quando estava grávida de mim. Beatles é minha essência, não consigo imaginar o que seria minha vida sem suas canções. Eles fizeram, e fazem, parte de todos os momentos da minha vida e seria desnecessário afirmar que eles são a banda mais genial que a história da humanidade já viu.
Enfim, quando vi aquela notícia de que o Paul estaria vindo para o Brasil em novembro para três shows, um em Porto Alegre e dois em São Paulo eu simplesmente enlouqueci em dois sentidos. Um: o Paul estaria no mesmo território nacional que eu, era uma chance única na vida de eu realizar o sonho pelo qual esperava a muito tempo. Dois: ele não faria show no meu estado. Isso me preocupou seriamente, e por uns dias eu pensei de fato que estava tudo acabado, eu não poderia ver ele.
Mas aí, no dia seguinte, descobri que a venda de ingressos começaria na próxima semana. E o pãnico tomou conta de mim. Tinha que convecer meus pais de que eu tinha que ir naquele show, pois era sua última turnê e eu precisava ver um beatle vivo. Preparei todos os meus melhores argumentos, respirei fundo, e fui falar direto com a pessoa que é fanática pelo Paul: meu pai. Fiz um dos discursos mais bonitos da minha vida e consegui: eu ia no show do Paul McCartney em São Paulo. A alegria que senti naquele dia foi sem tamanho, estava muito emocionada.
Mas então, alguns dias depois, perto da abertura da pré venda, eu descobri que os shows de São Paulo caíriam exatamente no mesmo dia da minha viagem de formatura. E foi a pior desilusão da minha vida, lembro que deitei na cama e chorei compulsivamente. Achei que minhas chances estavam acabadas, mas aí eu me lembrei: teria ainda um show em Porto Alegre. E, naquele momento, tudo pareceu tão certo que não teria erro: eu definitivamente iria ver o Paul, custe o que custasse.
Apresentei a ideia pro meu pai e ele ficou hesitante inicialmente pois os gastos seriam extremamente maiores, mas ele foi bastante compreensível e viu o quanto aquilo era importante em minha vida. Então, nossos planos mudaram e eu agora iria ver o Paul em Porto Alegre. Fiquei muito empolgada mas ainda não poderia comemorar plenamente pois a parte mais tensa de todas ainda estava por vir: conseguir os ingressos.
Alguém tem noção da quantidade de fãs que um beatle tem no Brasil, no mundo? Alguém tem noção de como ele é maravilhoso e de como sua música é essencial para as pessoas? E por fim, alguém tem noção da dificuldade que é conseguir um ingresso para um show de uma lenda viva? Pois é.
No dia 12 de outubro, pontualmente as oito da manhã, estava fazendo plantão desde madrugada na internet para a abertura dos ingressos pro show de Paul McCartney. Como se não bastasse toda a dificuldade que teria que enfrentar, 70% dos ingressos já tinham sido vendidos na pré venda o que tornava as coisas muito mais complexas. Mas eu estava lá na coragem, não ia desistir sem ao menos tentar.
Quando o link no site foi aberto, meu coração disparou de tal maneira, a tensão martelava em minhas veias e eu não conseguia piscar os olhos. Eu achava que não ia conseguir, afinal, milhões de pessoas estavam tentando junto comigo. Mas eu fui a escolhida, a sorte estava ao meu lado. Conclui minha compra, dia 7 de novembro estaria dentro do estádio do beira Rio a muitos e muitos quilômetros de distância vendo, ouvindo e sentindo Sir Paul McCartney. O que senti naquele momento foi indescritível, foi a melhor sensação do mundo. Jamais tinha me sentido tão completa, tão realizada, tão feliz.
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07 de novembro, as sete horas da manhã, entrei no carro a caminho do aeroporto e eu nunca estive tão acordada a uma hora daquelas. Tudo parecia um sonho e eu não estava acreditando naquilo. Depois de alguns problemas com atrasasos de vôo, consegui embarcar rumo a Porto Alegre. Era a pessoa mais radiante daquele avião, a felicidade que eu sentia era contagiante.
Porto Alegre não podia estar mais linda. A cidade onde floreciam ipês roxos em todos os cantos e o céu estava em um tom de azul jamais visto iria, naquela noite, receber um dos maiores gênios da música. Fui para a bilheteria do estádio, que já estava com milhares de pessoas aglomeradas em volta debaixo de um Sol escaldante, pessoas que já estavam lá a semanas. Quando toquei naquele ingresso senti como se tudo pudesse ser possível a partir daquele momento, podia morrer feliz, eu era uma pessoa imensamente privilegiada. Eu simplesmente sentei na calçada e chorei de felicidade porque estar ali foi a maior alegria da minha vida, eu ia ver um beatle.
Fui para o supermercado, comprei algumas coisas para comer depois do show e fui para o hotel descansar. Dormi durante horas, e foi o melhor sono da minha vida: estava em êxtase. As 17:00 horas fui para o estádio Beira-Rio... que estava a visão do inferno. Havia seis filas quilométricas para cada portão, pessoas passando mal, pessoas gritando, não havia uma pessoa para orientar nada, estava um caos. Muitas pessoas comentaram que não conseguiríamos entrar e eu entrei em pânico, chorava tanto que uma moça da produção saiu do backstage para vir falar comigo, e se não fosse ela para secretamente dar a dica de que devíamos entrar por outro portão, iriamos ficar do lado de fora ou chegar dois minutos antes do show começar, como aconteceu com uma quantidade absurda de gente. Confesso que tive que ser completamente cara de pau para poder pegar um lugar decente: furei a fila discretamente com um grupo de torcedores do Inter e quando passei pela roleta e entrei no estádio, eu não podia acreditar. Tinha caído a ficha.
Consegui um lugar muito bom, de frente para o palco, com uma visão perfeita dos dois telões. O crepúsculo caía sobre a cidade, um dj estava no palco tocando músicas maravilhosas, havia um mar de pessoas na minha frente e no final, o palco mais gigantesco que já vi. Acima de nós, apenas um céu claro, onde surgia as primeiras estrelas. Um ventinho fresco soprava, fazendo a emoção aumentar cada vez mais. As luzes começaram a ser testadas e a multidão gritava, ansiando por ver Paul. Melhor impossível.
As 21 horas daquela noite fatídica, Paul entrou no Palco acenando e fazendo coração para aquele povo brasileiro que ele tanto ama. As 70 mil pessoas ali presente deliraram, todas emocionadas por estar vendo um beatle. Netos abraçavam avós, pais abraçavam filhos e filhas, amigos comemoravam juntos, a alegria era absoluta. O que aconteçeu nas próximas três horas, é impossível de descrever e cada tentativa minha vai ser inútil. O que eu senti nada nesse mundo paga, tem um valor inestimável. Só que estava lá é que pode entender, cada grito, cada pulo, cada lágrima, cada suor, cada dinheiro gasto para estar ali, TUDO tinha valido incrivelmente a pena porque o que presenciei não é para qualquer um e muito menos é algo que haja palavras no dicionário para descrever. Eu só gostaria de agaradecer imensamente ao meu pai por ter acreditado em mim e me compreendido como nenhum outro pai faria e acima de tudo, muito obrigada por ter transformado meu maior sonho em realidade. Obrigada também a Sir Paul McCartney, o maior compositor e o melhor músico de todos os tempos. e que ele ainda fique por muito tempo entre nós, nos emocionando com suas músicas, que são únicas. No final, só me restaram fotos, vídeos, grama do Beira Rio dentro de um saquinho, bandeiras e camisas. Mas o mais importante é que isto está gravado em minha memória, para eu jamais esquecer.
Setlist:
Venus and Mars” / “Rock Show”
“Jet”
“All My Loving”
“Letting Go”
“Drive My Car”
“Highway”
“Let Me Roll It”
“The Long and Winding Road”
“Nineteen Hundred and Eighty-Five”
“Let ‘Em In”
“My Love”
“I’ve Just Seen a Face”
“And I Love Her”
“Blackbird”
“Here Today” (Homenagem a John Lennon, não enxergava nada de tanto que chorava, pensando em como seria incrível se John ainda estivesse vivo)
“Dance Tonight”
“Mrs Vandelbilt”
“Eleanor Rigby”
“Ram On”
“Something”
“Sing the Changes”
“Band on the Run”
“Ob-La-Di Ob-La-Da”
“Back in the USSR”
“I’ve Got a Feeling”
“Paperback Writer”
“A Day in the Life” / “Give Peace a Chance”
“Let It Be” ( Linda, linda, linda. Nunca mais vou apagar da minha mente a imagem de 70 mil pessoas com seus isqueiros acesos, cantando com a voz embargada uma das maiores músicas de todos os tempos)
“Live and Let Die” ( Foi uma superprodução, muitos fogos, explosões, luzes, não poderia ser mais fantástico)
“Hey Jude” (Sobrenatural)
Bis
“Daytripper”
“Lady Madonna”
“Get Back”
Bis 2
“Yesterday” ( Foi a coisa mais surreal que um ser humano poderia ver)
“Helter Skelter”
“Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band” / “The End”
Terei orgulho de contar isso para os meus netos. Vou fazer questão de que esta beatlemania seja passada de geração em geração, até o fim. Todo ser humano tinha que ter a oportunidade de ver o que eu vi. Sete de novembro de dois mil e dez, que este dia seja eternizado em nossas memórias e em nossos corações.
xx
''Times like these i'll never forget''